segunda-feira, maio 22, 2006

A matança dos suspeitos (publicado na Agência Carta Maior)

Já que não temos justiça, por que não nos contentar com a vingança? Os

meninos pardos e pobres da periferia estão aí pra isso mesmo. Para morrer na

lista dos suspeitos anônimos. Para serem executados pela polícia ou pelos

traficantes.
Vamos falar sério: alguém acredita que a rebelião do PCC foi controlada pela
polícia de São Paulo? Vejamos: as autoridades apresentaram aos cidadãos

evidências de que pelo menos uma parte da poderosa quadrilha do crime
organizado foi desbaratada? O sigilo dos celulares que organizaram, de

dentro das prisões, a onda de atos terroristas no estado de São Paulo,

Paraná, Mato Grosso, etc, foi quebrado para revelar os nomes de quem
trabalhou para Marcos Camacho, o Marcola, fora da cadeia? Qual foi o plano

de inteligência posto em ação para debelar a investida do terror iniciada no

último final de semana?


Alguém acredita que "voltamos à normalidade?" Ou se voltamos – pois a vida

está mais ou menos com a mesma cara de antes, só um pouco mais envergonhada:
de que normalidade se trata?


Uma normalidade vexada: uma vez constatada a rapidez com que os capitalistas

selvagens do tráfico de drogas desestabilizaram o cotidiano do estado mais

rico do Brasil, não dá mais para esconder o fato de que nossa precária
tranqüilidade depende integralmente da tranqüilidade deles. Se os defensores

da lei e da ordem não mexerem com seus negócios, eles não mexem conosco.

Caso contrário, se seus interesses forem afetados, eles põem para funcionar

imediatamente a rede de miseráveis a serviço do tráfico, conectada através
de celulares autorizados pelo sistema carcerário (que outra explicação para

a falta de bloqueadores e de detectores de metal nos presídios?) e toleradas

pelo governador de plantão. No caso, o mesmo governador que, na hora do

aperto, rejeitou trabalhar em colaboração com a Polícia Federal e, horas
depois, negou ter feito acordos com os líderes do PCC. Segunda feira, nos

telejornais, o governador Lembo nos fez recordar a retórica autoritária dos

militares: nada a declarar além de "tudo tranqüilo, tudo sob controle". E

quanto aos oitenta mortos (hoje são 115), governador? Ah, aquilo. Bem,
aquilo foi um drama, é claro. Lamento muito. Mas pertence ao passado.


A falta de transparência na conduta das autoridades e a desinformação

proposital, que ajuda a semear o pânico na população, fazem parte das

táticas autoritárias do atual governador de São Paulo. Quanto menos a
sociedade souber a respeito da crise que nos afeta diretamente, melhor.

Melhor para quem?


Na noite de segunda feira, quando os paulistanos em pânico tentavam voltar

mais cedo para casa, vi-me parada ao lado de uma viatura policial, em um dos

muitos congestionamentos que bloquearam a cidade. Olhei o homem à minha
esquerda e, pela primeira vez na vida, solidarizei-me com um policial. Vi um

homem humilde, desprotegido, assustado. Cumprimentou-me com um aceno

conformado, como quem diz: fazer o que, não é? Pensei: ele sabe que está

participando de uma farsa. Uma farsa que pode lhe custar a vida.


De repente entendi uma parte, pelo menos uma parte, da já habitual
truculência da polícia brasileira: eles sabem que arriscam a vida em uma

farsa. Não me refiro aos salários de fome que facilitam a corrupção entre

bandidos e PMs. Refiro-me ao combate ao crime, à proteção da população, que

são a própria razão de ser do trabalho dos policiais. Se até eu, que sou
boba, percebi a farsa montada para que a polícia fingisse controlar o terror

que se espalhava pela cidade enquanto as autoridades negociavam

respeitosamente com Marcolas e Macarrões, imagino a situação do meu
companheiro de engarrafamento. Imagino a falta total de sentido do exercício

arriscado de sua profissão. Imagino o sentimento de falta de dignidade

destes que têm licença para matar os pobres, mas sabem que não podem mexer

com os interesses dos ricos, nem mesmo dos que estão trancados em presídios
de segurança máxima e restrições mínimas.


Mas é preciso trabalhar, tocar a vida, exercer o trabalho sujo no qual não

botam fé nenhuma. É preciso encontrar suspeitos, enfrentá-los a tiros,

mostrar alguns cadáveres à sociedade. Satisfazer nossa necessidade de
justiça com um teatro de vingança. A esquizofrenia da condição dos policiais

militares foi revelada por algumas notícias de jornal: encapuzados como

bandidos, executam inocentes sem razão alguma para a seguir, exibindo a

farda, fingirem ter chegado a tempo de levar a vítima para o hospital.


Isso é o que alguns PMs fazem na periferia, nos bairros pobres onde também

eles moram, onde o desamparo em relação à lei é mais antigo e mais radical
do que nas regiões mais centrais da cidade. Nas ruas escuras das periferias

os PMs cumprem seu dever de vingança e atiram no entregador de pizza. Atiram

no menino que esperava a noiva no ponto de ônibus, ou nos anônimos que
conversam desprevenidos, numa esquina qualquer. No motoboy que fugiu

assustado – quem mandou fugir? Alguma ele fez... Não percebem – ou percebem?

– que o arbítrio e a truculência com que tratam a população pobre contribui

para o prestígio dos chefes do crime, que às vezes se oferecem às
comunidades como única alternativa de proteção.


Assim a polícia vem "tranqüilizando" a cidade, ao apresentar um número de

cadáveres "suspeitos" superior ao número de seus companheiros mortos pelo

terrorismo do tráfico. Suspeitos que não terão nem ao menos a sorte do
brasileiro Jean Charles, cuja morte será cobrada da polícia inglesa porque

dela se espera que não execute sumariamente os cidadãos que aborda, por mais

suspeitos que possam parecer. Não é o caso dos meninos daqui; no Brasil

ninguém, a não ser os familiares das vítimas, reprova a polícia pelas
execuções sumárias de centenas de "suspeitos". Mas até mesmo os familiares

têm medo de denunciar o arbítrio, temendo retaliações.


Aqui, achamos melhor fingir que os suspeitos eram perigosos, e seus

assassinatos são condição na nossa segurança. Deixemos o Marcola em paz; ele

só está cuidando de seus negócios. Negócios que, se legalizados, deixariam o
campo de forças muito mais claro e menos violento (morre muito mais gente

inocente na guerra do tráfico do que morreriam de overdose, se as drogas

fossem liberadas – disso estou certa). Mas são negócios que, se legalizados,

dariam muito menos lucro. O crime é que compensa.


Então ficamos assim: o estado negocia seus interesses com os do Marcola, um
homem poderoso, fino, que lê Dante Alighieri e tem muito dinheiro. Deixa em

paz os superiores do Marcola que vivem soltos por aí, no Congresso talvez,

ou abrigados em algumas secretarias de governo. Deles, pelo menos, a
população sabe o que pode e o que não pode esperar. E já que é preciso dar

alguma satisfação à sociedade assustada, deixemos a polícia à vontade para

matar suspeitos na calada da noite. Os policiais se arriscam tanto,
coitados. Ganham tão pouco para servir à sociedade, e podem tão pouco contra

os criminosos de verdade. Eles precisam acreditar em alguma coisa; precisam

de alguma compensação. Já que não temos justiça, por que não nos contentar

com a vingança? Os meninos pardos e pobres da periferia estão aí pra isso
mesmo. Para morrer na lista dos suspeitos anônimos. Para serem executados

pela polícia ou pelos traficantes. Para se viciarem em crack e se alistar

nas fileiras dos soldadinhos do tráfico. Para sustentar nossa ilusão de que

os bandidos estão nas favelas e de que do lado de cá, tudo está sob
controle.


MARIA RITA KEHL
psicanalista, ensaísta e poeta, é autora do livro "A mínima diferença - o
masculino e o feminino na cultura".

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