Já que não temos justiça, por que não nos contentar com a vingança? Os
meninos pardos e pobres da periferia estão aí pra isso mesmo. Para morrer na
lista dos suspeitos anônimos. Para serem executados pela polícia ou pelos
traficantes.
Vamos falar sério: alguém acredita que a rebelião do PCC foi controlada pela
polícia de São Paulo? Vejamos: as autoridades apresentaram aos cidadãos
evidências de que pelo menos uma parte da poderosa quadrilha do crime
organizado foi desbaratada? O sigilo dos celulares que organizaram, de
dentro das prisões, a onda de atos terroristas no estado de São Paulo,
Paraná, Mato Grosso, etc, foi quebrado para revelar os nomes de quem
trabalhou para Marcos Camacho, o Marcola, fora da cadeia? Qual foi o plano
de inteligência posto em ação para debelar a investida do terror iniciada no
último final de semana?
Alguém acredita que "voltamos à normalidade?" Ou se voltamos – pois a vida
está mais ou menos com a mesma cara de antes, só um pouco mais envergonhada:
de que normalidade se trata?
Uma normalidade vexada: uma vez constatada a rapidez com que os capitalistas
selvagens do tráfico de drogas desestabilizaram o cotidiano do estado mais
rico do Brasil, não dá mais para esconder o fato de que nossa precária
tranqüilidade depende integralmente da tranqüilidade deles. Se os defensores
da lei e da ordem não mexerem com seus negócios, eles não mexem conosco.
Caso contrário, se seus interesses forem afetados, eles põem para funcionar
imediatamente a rede de miseráveis a serviço do tráfico, conectada através
de celulares autorizados pelo sistema carcerário (que outra explicação para
a falta de bloqueadores e de detectores de metal nos presídios?) e toleradas
pelo governador de plantão. No caso, o mesmo governador que, na hora do
aperto, rejeitou trabalhar em colaboração com a Polícia Federal e, horas
depois, negou ter feito acordos com os líderes do PCC. Segunda feira, nos
telejornais, o governador Lembo nos fez recordar a retórica autoritária dos
militares: nada a declarar além de "tudo tranqüilo, tudo sob controle". E
quanto aos oitenta mortos (hoje são 115), governador? Ah, aquilo. Bem,
aquilo foi um drama, é claro. Lamento muito. Mas pertence ao passado.
A falta de transparência na conduta das autoridades e a desinformação
proposital, que ajuda a semear o pânico na população, fazem parte das
táticas autoritárias do atual governador de São Paulo. Quanto menos a
sociedade souber a respeito da crise que nos afeta diretamente, melhor.
Melhor para quem?
Na noite de segunda feira, quando os paulistanos em pânico tentavam voltar
mais cedo para casa, vi-me parada ao lado de uma viatura policial, em um dos
muitos congestionamentos que bloquearam a cidade. Olhei o homem à minha
esquerda e, pela primeira vez na vida, solidarizei-me com um policial. Vi um
homem humilde, desprotegido, assustado. Cumprimentou-me com um aceno
conformado, como quem diz: fazer o que, não é? Pensei: ele sabe que está
participando de uma farsa. Uma farsa que pode lhe custar a vida.
De repente entendi uma parte, pelo menos uma parte, da já habitual
truculência da polícia brasileira: eles sabem que arriscam a vida em uma
farsa. Não me refiro aos salários de fome que facilitam a corrupção entre
bandidos e PMs. Refiro-me ao combate ao crime, à proteção da população, que
são a própria razão de ser do trabalho dos policiais. Se até eu, que sou
boba, percebi a farsa montada para que a polícia fingisse controlar o terror
que se espalhava pela cidade enquanto as autoridades negociavam
respeitosamente com Marcolas e Macarrões, imagino a situação do meu
companheiro de engarrafamento. Imagino a falta total de sentido do exercício
arriscado de sua profissão. Imagino o sentimento de falta de dignidade
destes que têm licença para matar os pobres, mas sabem que não podem mexer
com os interesses dos ricos, nem mesmo dos que estão trancados em presídios
de segurança máxima e restrições mínimas.
Mas é preciso trabalhar, tocar a vida, exercer o trabalho sujo no qual não
botam fé nenhuma. É preciso encontrar suspeitos, enfrentá-los a tiros,
mostrar alguns cadáveres à sociedade. Satisfazer nossa necessidade de
justiça com um teatro de vingança. A esquizofrenia da condição dos policiais
militares foi revelada por algumas notícias de jornal: encapuzados como
bandidos, executam inocentes sem razão alguma para a seguir, exibindo a
farda, fingirem ter chegado a tempo de levar a vítima para o hospital.
Isso é o que alguns PMs fazem na periferia, nos bairros pobres onde também
eles moram, onde o desamparo em relação à lei é mais antigo e mais radical
do que nas regiões mais centrais da cidade. Nas ruas escuras das periferias
os PMs cumprem seu dever de vingança e atiram no entregador de pizza. Atiram
no menino que esperava a noiva no ponto de ônibus, ou nos anônimos que
conversam desprevenidos, numa esquina qualquer. No motoboy que fugiu
assustado – quem mandou fugir? Alguma ele fez... Não percebem – ou percebem?
– que o arbítrio e a truculência com que tratam a população pobre contribui
para o prestígio dos chefes do crime, que às vezes se oferecem às
comunidades como única alternativa de proteção.
Assim a polícia vem "tranqüilizando" a cidade, ao apresentar um número de
cadáveres "suspeitos" superior ao número de seus companheiros mortos pelo
terrorismo do tráfico. Suspeitos que não terão nem ao menos a sorte do
brasileiro Jean Charles, cuja morte será cobrada da polícia inglesa porque
dela se espera que não execute sumariamente os cidadãos que aborda, por mais
suspeitos que possam parecer. Não é o caso dos meninos daqui; no Brasil
ninguém, a não ser os familiares das vítimas, reprova a polícia pelas
execuções sumárias de centenas de "suspeitos". Mas até mesmo os familiares
têm medo de denunciar o arbítrio, temendo retaliações.
Aqui, achamos melhor fingir que os suspeitos eram perigosos, e seus
assassinatos são condição na nossa segurança. Deixemos o Marcola em paz; ele
só está cuidando de seus negócios. Negócios que, se legalizados, deixariam o
campo de forças muito mais claro e menos violento (morre muito mais gente
inocente na guerra do tráfico do que morreriam de overdose, se as drogas
fossem liberadas – disso estou certa). Mas são negócios que, se legalizados,
dariam muito menos lucro. O crime é que compensa.
Então ficamos assim: o estado negocia seus interesses com os do Marcola, um
homem poderoso, fino, que lê Dante Alighieri e tem muito dinheiro. Deixa em
paz os superiores do Marcola que vivem soltos por aí, no Congresso talvez,
ou abrigados em algumas secretarias de governo. Deles, pelo menos, a
população sabe o que pode e o que não pode esperar. E já que é preciso dar
alguma satisfação à sociedade assustada, deixemos a polícia à vontade para
matar suspeitos na calada da noite. Os policiais se arriscam tanto,
coitados. Ganham tão pouco para servir à sociedade, e podem tão pouco contra
os criminosos de verdade. Eles precisam acreditar em alguma coisa; precisam
de alguma compensação. Já que não temos justiça, por que não nos contentar
com a vingança? Os meninos pardos e pobres da periferia estão aí pra isso
mesmo. Para morrer na lista dos suspeitos anônimos. Para serem executados
pela polícia ou pelos traficantes. Para se viciarem em crack e se alistar
nas fileiras dos soldadinhos do tráfico. Para sustentar nossa ilusão de que
os bandidos estão nas favelas e de que do lado de cá, tudo está sob
controle.
MARIA RITA KEHL
psicanalista, ensaísta e poeta, é autora do livro "A mínima diferença - o
masculino e o feminino na cultura".
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